'Minas está em decadência', diz Marcio Lacerda, pré-candidato a governador

Ex-prefeito e BH ataca governo Pimentel e diz que não quer ser terceira via na eleição, mas a principal

MF Marcelo da Fonseca

postado em 21/12/2017 06:00 / atualizado em 21/12/2017 07:33

 

"Os aliados que têm compromisso com a reeleição (do governador Pimentel) são melhor tratados que os demais. Isso não é justo com a população"(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press )

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Pré-candidato ao governo de Minas Gerais, o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB) tenta se tornar mais conhecido fora da capital para a disputa ao Palácio da Liberdade em 2018. Nos últimos meses, Lacerda visitou 110 cidades pelo interior mineiro.

“Não quero ser uma terceira via, quero ser a principal opção”, afirma o ex-prefeito. Em entrevista ao Estado de Minas, Lacerda criticou a gestão do governador Fernando Pimentel (PT) e lamentou que o estado se compare com o Rio de Janeiro: “O governo atual se consola por estar um pouco melhor do que o Rio. Isso é muito grave”. 

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Segundo ele, apesar de assumir apontando a situação financeira complicada de Minas, na prática “o estado se comportou como se a situação não estivesse difícil”, concedendo aumentos e “aparelhando politicamente” a máquina pública estadual. 

Depois de receber muitos ataques de Alexandre Kalil (PHS) durante a campanha de 2016, Lacerda ressalta que a atual gestão da PBH tem dado continuidade aos seus projetos e encontrou a “casa arrumada”. “Ele fez uma auditoria detalhadíssima e não achou nada errado em nossa gestão. Está trabalhando para concluir nossos projetos”, diz o ex-prefeito.

O sr. tem feito muitas viagens pelo interior para se tornar mais conhecido fora da capital. Como está sendo o contato com o eleitor fora de BH?
Pesquisa feita por nós mostra que sou conhecido por apenas 22% da população do estado. E esse conhecimento está concentrado aqui na região metropolitana. Entre os que me conhecem tenho uma alta intenção de voto. Então, o desafio, em primeiro lugar, é me tornar mais conhecido. Com o objetivo fundamental de fazer uma peregrinação de aprendizagem. Minas Gerais é muito grande e as realidades variam muito de região para região. Variam na geografia, na história, na economia, na política, na cultura. Cada região, sub-região e cidade tem peculiaridades em relação ao momento atual e à crise. Nesse giro, percebi que existe uma certa identidade de problemas que têm a ver com a situação nacional e com a situação difícil do estado. O objetivo é chegar no final do primeiro trimestre do próximo ano com um plano de governança para Minas Gerais. Acho que nesse momento, em que o povo está cansado de falsas promessas e milagres, o povo recebe bem quando falamos o que realmente podemos fazer. Por isso é preciso ter uma proposta franca e transparente, mostrando caminhos, soluções e alternativas. Ganhar eleição por ganhar, sem ter viabilidade, não vale a pena. Também não vale a pena fazer promessas que sabemos que não vão ser cumpridas.

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Em 2008 e 2012, o sr. se apresentou como gestor, um outsider da política. Após ser prefeito por dois mandatos e presidente do seu partido, o sr. pretende se apresentar como um gestor? 
As pesquisas mostram que mais de 60% dos entrevistados querem votar em um bom gestor, seja político de carreira ou não. Mas com experiência comprovada e ficha limpa. Vejo muita incompreensão quando as pessoas falam sobre o que é ser político e o que não é ser político. A maioria das pessoas, ou quase todas, faz política o tempo todo. Política é discutir a situação do ambiente em que você vive, é fazer escolhas no ambiente coletivo. Seja no curto, médio ou longo prazo. A maioria das pessoas acha que política são eleições e partidos. Mas na realidade isso é o que a Constituição definiu para organizar a rotatividade no poder. Temos políticos de carreira, que se ligam aos partidos durante a vida inteira, e pessoas que se filiam aos partidos para disputar eleições. Desde que fui para o Ministério da Integração Nacional, como secretário-executivo, em 2003, passei a ser um agente político, no sentido de prestar serviço público. Mas vim me filiar ao PSB em 2007, tendo quatro anos de experiência no governo federal. Portanto, nesTe momento eu estou político, filiado ao partido para concorrer ao cargo. Mas no final a política é discutir as demandas e carências para resolver problemas através de diálogo.

Como avalia a administração do governador Fernando Pimentel (PT)?
A gestão atual assumiu em momento que ficava claro que estávamos mergulhados em uma recessão. O governo assumiu falando que era uma situação difícil, mas se comportou, inexplicavelmente, como se a situação não estivesse difícil. Ampliou as estruturas, deu aumentos de salários, ou seja, não fez ajustes. Na Prefeitura de BH, em 2014 e 2015, fizemos um ajuste forte e entregamos a gestão com uma folha de pagamento com 39% sobre a receita corrente líquida. A segunda capital com o menor peso da folha na receita. A média brasileira foi de 49%. Hoje, parece que a folha de pagamento do estado está consumindo 70% da receita. O governo atual não fez qualquer ajuste. O estado não tem um plano, não tem visão de futuro, aparelhou politicamente a máquina e não tem unidade de ação. A impressão que dá é de um governo que está organizado para disputar as próximas eleições. A maioria dos cargos políticos estão vinculados a essa ação de curto prazo. Minas Gerais mereceria um secretariado de muito alto nível, de dimensão internacional. Vemos um estado que tem dificuldades nas finanças, que se compara com o Rio de Janeiro, um desastre total na gestão. O governo se consola por estar um pouco melhor do que o Rio. Isso é muito grave. O recurso que já é limitado não está sendo bem usado. A saúde vive uma situação grave, o estado deve bilhões às prefeituras e hospitais, e vemos claramente que esse recurso não é distribuído com critérios técnicos, mas com critérios políticos. Os aliados que têm compromisso com a reeleição (do governador Pimentel) são melhor tratados que os demais. Isso não é justo com a população. Além disso, Minas Gerais não é um ambiente favorável para negócios. O governo aumentou absurdamente impostos, não temos isonomia competitiva com estados vizinhos, uma burocracia muito pesada no licenciamento das atividades. Tínhamos participação no PIB de quase 13%, hoje temos menos de 9%. Estamos em decadência.

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O sr. acha que a situação econômica do estado continuará ruim a partir de 2019 ou o cenário pode melhorar? 
Este ano a economia não cresce. Parou de cair, mas vai crescer menos de 1%. Este trimestre não foi bom o desempenho. A agricultura teve queda. As projeções feitas pelo governo federal apontam  crescimento de 3% no próximo ano, se crescer 2,5% já ajudará. Mas precisaríamos de um crescimento constante e sustentável pelos próximos 5 a 8 anos para que o país alcance uma relação dívida/PIB administrável. Hoje, não conseguimos pagar as dívidas e elas aumentam a cada ano. Minas Gerais hoje não pode tomar novos empréstimos e isso é muito ruim. Existe uma legislação federal que permite ao estado se ajustar nessa situação, suspender o pagamento de dívidas e tomar novos empréstimos, mas precisaria cumprir obrigações, vender patrimônio e segurar o crescimento de despesas, mas o governo do estado vinha se recusando a fazer isso. O Rio já assinou esse acordo. Agora, o governo já fala em vender 49% da Codemig, o que pode ajudar um pouco nas contas. Acho que privatização de estatais, de acordo com a Constituição mineira, é um tema que exige um plebiscito. Então, era o caso de discutir com a população. Não sei se é a melhor situação. O governo fala em Lei Kandir, mas isso é uma miragem neste momento. O fundamental é que nós não temos plano. O estado não tem projeto, nem de curto, médio ou longo prazo.

Em 2008, Pimentel e Aécio se uniram para apoiá-lo à Prefeitura de BH. Ano que vem eles podem ser seus adversários pelo governo de Minas. Como vê a disputa com antigos aliados? 
Em 2008, realmente, foi uma união e convergência histórica e inédita. Orgulho-me muito de ter sido alguém capaz de propiciar essa união. E governar com essa união. No primeiro mandato a participação dos dois partidos no governo (PT e PSDB) funcionou bem. Isso não continuou porque eles se separaram, não porque eu me separei deles. Acho que tenho condições de diálogo com muitas tendências políticas e ideológicas. Esses diálogos estão acontecendo no sentido de discutir o momento atual e buscar alianças para o próximo ano. Está muito cedo ainda. Acho que sobre a candidatura do governador ele não tem alternativa, digamos assim, é o único caminho, tentar a reeleição. Com relação ao senador Aécio, não sei. É mais provável que ele se candidate ao Senado.

Outros nomes também já se colocaram na disputa, como o ex-presidente da Assembleia Dinis Pinheiro, o empresário Romeu Zema e o deputado Rodrigo Pacheco. 
Todos são pessoas com uma boa história. Alguns eu conheço mais, como o Dinis Pinheiro, tenho uma boa relação com ele. Rodrigo Pacheco é um deputado novo, não conheço a história dele e a experiência dele para fazer uma avaliação. Mas é uma experiência mais como parlamentar e advogado. Romeu Zema é um empresário herdeiro de uma grande cadeia de lojas e postos de gasolina. É um bom empresário, mas sem nenhuma experiência de gestão pública. O desenvolvimento das ideias e debates sobre os planos de governo vão demonstrar quem tem mais viabilidade e as pesquisas irão também mostrar isso.

Um dirigente do PSB afirmou que o sr. não é unanimidade dentro do próprio partido. Como está a relação dentro do partido?
Ele deveria ter dito que não tenho apoio de toda a executiva estadual, mas ela é uma comissão provisória, pode ser mudada a qualquer momento pela direção nacional. Mas mesmo na atual executiva estadual tenho certeza de que teria maioria nela pela minha candidatura a governador.

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As disputas políticas estão agressivas nos últimos anos e durante a audiência que o sr. participou na Câmara Municipal sobre a CPI da PBH Ativos houve muita confusão. Esse clima polarizado e radicalizado deve se repetir nas eleições?
Houve ali uma iniciativa do PT e do PCdoB, apoiados por vereadores novos e que tinham pouca informação sobre nossa gestão, baseados em uma denúncia feita por uma economista aposentada ao Ministério Público. Eu disse desde o início e compareci ao gabinete de vários vereadores: vocês não vão achar nada de errado e vão me dar um atestado de honestidade. E foi feita uma devassa, com dezenas e dezenas de oitivas. Consultaram o Tribunal de Contas da União, do Estado, o Ministério Público, a Comissão de Valores Imobiliários, vários órgãos oficiais, e no final houve uma chicana para não ter um relatório votado. A denúncia da economista foi apurada em detalhe pelo MP e estamos esperando que o órgão oficialize seu relatório, que será absolutamente a meu favor, eu espero. Agora estou processando essa economista, porque ela foi em uma rádio e fez acusações graves. Entrei com processo por calúnia e difamação. Então, esse clima polarizado pode se repetir, a internet sabemos como é usada. Mas espero que a campanha seja limpa. A população não quer essa briga toda.

Em 2016, o prefeito Alexandre Kalil, então candidato, fez muitas críticas ao sr. e à sua administração. Esses ataques podem atrapalhar sua campanha no ano que vem? 
Pelo que eu sei, ele fez uma devassa em minha administração, fez uma auditoria detalhadíssima. Até onde sei ele não achou nada de errado em nossa gestão e está trabalhando para concluir nossos projetos. Obras que deixamos em andamento, financiamentos que deixamos bem encaminhados para garantir mais recursos para investimentos. Entregamos a prefeitura em situação financeira invejável em relação a outras capitais. Tanto que está podendo tomar dinheiro emprestado. No ano passado, a Controladoria-Geral da União (CGU) nos deu nota máxima em transparência. Rankings mostram que na área de saúde BH foi a segunda melhor cidade do país, ficando atrás apenas de Vitória. Fomos a capital que mais investiu por habitante em saúde. Então, o Kalil encontrou uma prefeitura bem organizada, com obras em andamento e dinheiro em caixa, que permitiram a ele apresentar resultados à população. Fizemos escolas infantis de Primeiro Mundo. Tanto que a classe média buscava a Justiça querendo vagas nas UMEIs. Esse hospital do Barreiro que fizemos deve ser hoje um dos melhores, senão o melhor, hospital 100% SUS do país. Nós o entregamos todo equipado. Mas um grande hospital, mesmo no setor privado, nunca é colocado em funcionamento 100% ocupado. É uma operação complexa, precisa treinar o corpo clínico, treinar as equipes. Ele não foi ocupado mais rapidamente porque infelizmente os governos federal e estadual não se dispuseram a cumprir sua parte. Não sei se foi por motivos políticos, já que tínhamos o PT nos governos federal e estadual. O clima eleitoral também pode ter afetado isso, já que o hospital do Barreiro foi muito usado na campanha. Mas não faltava nada lá dentro.

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